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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

GUIdance 2014 Guimarães Programa - Festival Dança Contemporânea

Na sua 4ª edição, o GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea, que se realiza em Guimarães – volta a mostrar-se com natural destaque no mês de fevereiro, apresentando este ano um modelo aumentado relativamente às três anteriores edições, oferecendo dois blocos de programação distintos: ao final da tarde, artistas emergentes encontram na Black Box da Plataforma das Artes e da Criatividade um palco privilegiado para mostrar o seu trabalho; à noite, os auditórios do Centro Cultural Vila Flor acolhem companhias e criadores consagrados que convivem num programa de duas semanas que celebra, acima de tudo, a dança contemporânea enquanto expressão artística capaz de despertar as mais inúmeras emoções. 

Com esta aposta, o GUIdance apresenta um caráter programático ainda mais completo na deteção de novos talentos e na afirmação das novas ideias assentes na exploração do corpo e respetivo movimento. O festival cumpre assim um caminho de afirmação dentro deste universo, projetando Guimarães como um palco essencial para o entendimento das principais visões criativas desta particular linguagem. Num total de 15 espetáculos, serão apresentadas 5 estreias (2 absolutas e 3 nacionais) entre os dias 06 e 15 de fevereiro. 

O primeiro espetáculo desta edição a pisar o palco será uma estreia absoluta. A 06 de fevereiro, às 19h30, “Matilda Carlota”, de Jonas Lopes, revela um mundo de contradições e ambiguidades, desde logo assumidas por uma personagem andrógina, artificial e psicologicamente grávida de desejo. Num desenhar paulatino de desadequada existência, a incoerência do real revela-se coerente no universo simbólico da representação: a “intimidade despojada”, o preto e branco, a experiência anómala da conexão com o mundo que a melancolia de “Sposa no mi conosci”, de Giacomelli, tocada ao piano pelo mordomo e cantada em contratenor por Matilda, faz assomar. 

No mesmo dia de abertura do festival, “Fica no Singelo”, da companhia Clara Andermatt, será apresentado às 22h00. “Fica no Singelo” é um trabalho coreográfico que expõe rituais e celebrações, histórias e vozes de trabalho, que se vestem de terra e do suor de que são feitos os costumes. Clara Andermatt trabalha o património tradicional português e, com isso, recorre à riqueza do passado transmitida através do folclore e dos bailes populares. Uma vontade que lhe vem de projetos anteriores e que encontra em “Fica no Singelo” mais uma oportunidade para fertilizar os terrenos da pesquisa etnográfica. No final do espetáculo, os espetadores serão convidados a participar num baile no qual podem experimentar algumas das danças que inspiraram a peça.

O segundo dia de apresentações (07 fevereiro) inicia-se às 19h30 com dois espetáculos sucessivos. Primeiramente, Ludvig Daae apresenta “MM”. Este criador e performer relaciona-se consigo próprio. Negoceia. Realiza um dueto virtual com a sua imagem projetada. Uma poética possível a partir da tecnologia que confere primazia ao movimento, pois é no vídeo que ele se manifesta mais pertinente. Do diálogo da tridimensionalidade de Ludvig com a bidimensionalidade de Daae, nasce uma obra com uma linguagem inovadora e cada vez mais explorada na dança contemporânea: a interação entre dança e vídeo. Seguidamente, no mesmo espaço, uma coreografia de Flávio Rodrigues transporta-nos para um lugar em branco, em suspenso, sem referências temporais, inócuo. Este é o lugar proposto por “Nil-City”, uma reflexão provocada pela crescente saturação dos dias que correm, metáfora de fluxos constantes e interações de um sistema capitalista, moldado por estratégias políticas, de intertextualidades e redundâncias. Este “fim” preconizado não é uma explosão. É antes o seu contrário. Uma inversão de eixos que implode.

Ainda nessa sexta-feira, às 22h00, a Útero Associação Cultural leva a sua “Pele” até ao palco do Pequeno Auditório do CCVF. Dois corpos de pele, nus, uma pianista, uma atriz. A música, micro-sonoridades construídas como uma tapeçaria. Corpos invertidos que ganham verticalidade, nova poesia. “Pele” é um requiem, um local onde podemos voltar a sentir de uma forma radical, o que há muito fica esquecido, o que insistimos em perder. Um questionamento. Um lugar de abstração. Um apelo à descodificação através dos sentidos. Uma estética da receção. “Pele” é a água como elemento emocional, os corpos que renascem noutro lugar, a luz como lugar da contemplação, a música como elemento perturbador e definidor dos elementos em palco e os intérpretes e suas diferentes leituras. “Pele” é uma partitura única.

Já no fim de semana, a 08 de fevereiro (sábado), serão apresentados quatro espetáculos, dois às 19h30 e dois às 22h00. Ao final da tarde, Mara Andrade apresenta a sua “Oxitocina”, uma performance densa, convulsionada, que parece remeter-nos para a efemeridade do prazer, da mulher como instrumento, de corpo como depósito de sémen, que a cada dia sofre melancolicamente. A mesma Mara Andrade junta-se a Marco da Silva Ferreira para interpretar “Por minha culpa, minha tão grande culpa”, explorando o sentimento de felicidade que sentimos quando a tristeza e o infortúnio atinge os outros e questionando se este ato sádico desperta em nós o que se esconde no subconsciente. Mara Andrade e Marco da Silva Ferreira, em palco, raramente se olham ou se tocam, evidenciando a agressividade que a indiferença pode carregar.

A fechar a primeira metade desta edição do GUIdance, surgem às 22h00 duas estreias nacionais trazidas pela companhia CCN – Ballet de Lorraine. O primeiro é uma coreografia de Emanuel Gat, que coloca o ser humano em causa com “Transposition#2”. Segunda parte de um conceito coreográfico que coloca a natureza humana no processo de transposição, “Transposition#2” recorre à simplicidade de meios. O corpo de bailarinos preenche o palco. Há grandes movimentos em conjunto que fazem da coreografia uma massa dinâmica intensa, colorida, misturando o tecido da roupa com a pele de corpos parcialmente despidos. No espetáculo que se segue é a vez de Mathilde Monnier apresentar “Objets re-trouvés”, uma coreografia que indaga a relação de vinte e três intérpretes com as obras que dançaram. Um espetáculo que a própria prepara para homenagear este corpo de dança e que abre o espaço necessário para que este diga alto o que pensa em silêncio. O espaço para que os seus corpos possam traduzir as partes do real que albergam, revelando os seus mecanismos de perceção, a sua força e o seu poder criativo, revelando a identidade formada ao longo do tempo numa partilha com o espetador.

A segunda semana de espetáculos decorre de 13 a 15 de fevereiro e conta com mais 6 espetáculos, incluindo uma estreia absoluta e outra nacional. Na quinta-feira (dia 13), “Hale” apresenta-se em estreia absoluta pelas 19h30. Esta performance de grande plasticidade, cor, movimento reúne cinco bailarinos em palco e é da autoria de Aleksandra Osowicz, Filipe Pereira, Helena Ramírez, Inês Campos e Matthieu Ehrlacher. À noite, chega a vez de Tiago Guedes apresentar “Hoje”, um exercício de reflexão do presente, do que somos e do que nos move, refletindo como nos devemos comportar perante a realidade que hoje é apenas um passado abandonado. No dia seguinte (dia 14), às 19h30, Teresa Silva e Filipe Pereira mostram “O que fica do que passa”, um jogo impressionista intimista e intenso. Mais tarde, às 22h00, é apresentada mais uma estreia nacional, “Grind”, uma criação de Jefta van Dinther, Minna Tiikkainen e David Kiers. “Abstand”, de Luís Marrafa, às 19h30, e “Paraíso - colecção privada”, de Marlene Monteiro Freitas, encerram o GUIdance 2014 no dia 15 de fevereiro.

Todos os espetáculos com início marcado para as 19h30 têm lugar na Black Box da Plataforma das Artes e da Criatividade. À noite, às 22h00, é a vez do Pequeno e do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor acolherem as apresentações do festival.

À semelhança das edições anteriores, o GUIdance inclui atividades paralelas que possibilitam a bailarinos e alunos de dança de nível avançado uma dimensão mais participativa, através da frequência de masterclasses com inscrição gratuita em www.ccvf.pt até 04 de fevereiro (com Marco da Silva Ferreira, Clara Andermatt, Luís Marrafa e António Cabrita). Para todos os interessados serão ainda realizadas duas conferências com a dança como temática subjacente. A primeira conferência (dia 08), intitulada “Contágios e Negociações Transdisciplinares”, será moderada por Rui Horta e terá como convidados Maria José Fazenda, João Sousa Cardoso e Miguel Moreira. A segunda acontece no último dia do festival sob o mote “O Corpo e a Arte na Era Digital” e contará com os convidados Paulo Cunha e Silva, José Bragança de Miranda e Tiago Guedes sendo moderados por Daniel Tércio.

O custo dos bilhetes para os espetáculos do GUIdance 2014 situa-se entre os 3,00 e os 10,00 euros, existindo a possibilidade de adquirir a assinatura do GUIdance por 50,00 euros para quem desejar assistir aos 15 espetáculos da edição deste ano.

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